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A bondade tem seus métodos



Por que me chamas bom?
Bom, só Deus (Jesus em Mc 10.17-22)

  
Passei a manhã pensando em como desenvolver um texto que falasse sobre a bondade divina, até que soou a campainha da casa.

Era um garoto de nove anos que, de tão mirrado, passaria sem levantar suspeitas por baixo da roleta dos ônibus - aqui, em São Paulo, crianças de até cinco anos passam dessa forma, sem precisar pagar passagem.

-Tem latinha? Garrafa de refrigerante?
A pergunta direta - vinda de quem não tem tempo a perder ou já cansou de ouvir “não” durante muito tempo - foi respondida com um abano positivo de cabeça. Fui buscar duas, de cerveja, que na noite anterior tinha consumido, assistindo a um jogo de futebol, pela televisão.

Entreguei ao garoto e já estava me virando para voltar a pensar sobre “bondade”, quando ele pediu também um copo com água. Só então me dei conta de que ali, na minha frente, estava alguém que tinha problemas muito mais urgentes para resolver do que escrever um texto: tinha sede, por exemplo. O calor beirava os trinta e tantos graus e se já me deixava “quase desidratado” dentro de casa, imagine para uma criança que andava na rua, sob o sol!

Trouxe a água e algumas frutas e por um pouco de tempo ficamos conversando. Soube que mora com a mãe e os irmãos, porque o pai foi embora. Que não estuda, porque ainda não encontrou vaga nas escolas da região. E que catar latas foi a maneira que conseguiu para ajudar a família, já que é o mais velho, o “homem da casa”, como disse.

O relógio andou poucos minutos. Ele agradeceu as frutas e a água, e disse que precisava ir, porque “tinha muita rua pra andar”.

Enquanto observava aquela criança subindo a ladeira, puxando seu carrinho de mão, cheio de latas, não conseguia deixar de imaginar que futuro teriam ele e seus irmãos, vivendo numa situação de miséria. Morreriam jovens? Seriam catadores de latas até que não pudessem mais andar? Acabariam no crime?
Me lembrei da parábola e de todos os “talentos” que recebera para que eu também ajudasse a construir um mundo melhor.
E só aí percebi que o encontro daquela manhã era fruto da bondade suprema, usando um menino como “instrumento” para me perguntar onde enterrei muitos dos recursos recebidos.

O garoto desapareceu no horizonte. Entrei.
Mas, como sou esquecido, talvez amanhã a Providência precise tocar novamente a campainha.

Humberto Nascimento
 Editor
de conteúdo da revista digital Opinião Espírita

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